O estranho mundo da adolescência
16:43 | Author: Ganhar Dinheiro Comig0

Têm 14, 15 anos. Já não são crianças, ainda não são adultos. Há neles “um profano desejo a crescer”. Libertos da redoma sagrada da infância, reféns de um ciclo lento, esperam. Que o ciclo se cumpra. Que a maioridade chegue, para se verem livres dos constrangimentos da adolescência. Para se verem livres. Mas crescer é para eles (como para os pais, a braços com novos desafios parentais) um processo longo. Um caminho feito de etapas e que se faz caminhando.






A palavra é “reserva”. Perante um adulto, cautela. Sinto a reserva com que o rapaz, esquivo, encara esta breve conversa. Reserva até em relação às coisas que parecem entusiasmá-lo, como por exemplo a música, que prefere que seja rock. Pergunto-lhe ainda assim de que forma é tocado pela música. “Algumas músicas gosto muito delas por causa do ritmo e da melodia, outras porque acho a letra interessante ou profunda. Gosto de letras de revolta, que falam por exemplo das guerras que são organizadas por pessoas ricas, e as pobres não têm nada a dizer embora sejam elas que sofrem”. Parece-lhe, do alto ainda periclitante da sua recente tomada de consciência, que o estado do mundo é perigoso e a vida das pessoas precária, sujeita a injustiças e arbitrariedades. Ousa já um discurso politizado: “As pessoas que poderiam contribuir mais para melhorar o estado do mundo são as que tem poder, como os políticos. Mas infelizmente muitas vezes não fazem nada. Por isso é preciso que cada pessoa possa contribuir para tentar melhorar as coisas. Quando vou a andar na rua sinto muitas injustiças, vejo muitos mendigos, pessoas sem nada, sem trabalho, sem casa, a dormir por aí, e isso revolta-me.”



Adultos irritantes

Talvez a outra palavra seja “revolta”. Mas revolta em relação a quê ou contra quem? “Às vezes sinto-me muito revoltado, e irrito-me, por exemplo com os meus pais, e nem sequer sei bem dizer porquê. Algumas vezes basta um pequeno comentário, que na altura me parece estúpido, para me irritar. Na escola há também alguns professores que me irritam, os que têm a mania de que são superiores a toda a gente, e sobretudo superiores aos alunos. Não aceitam os nossos pontos de vista, por vezes nem sequer querem ouvir a nossas opinião.” Pergunto se acha que há muitos adultos assim. Que sim, talvez porque, diz-me, queiram fazer passar a imagem de que estão certos ou que se sentem perfeitamente seguros do que pensam. “ Os adultos, por exemplo na política, gostam de dar a impressão de que a opinião deles não pode ser mudada e que acreditam mesmo no que dizem.” Irrita-o essa necessidade de coerência a toda a prova, esse muro erguido contra a dúvida.





REVOLTA “Às vezes sinto-me muito revoltado e nem sei bem dizer porquê. Às vezes basta um pequeno comentário, que me parece estúpido, para me irritar.”


Fazer escolhas

Stéphane nasceu em Lisboa, embora o pai seja francês e a mãe australiana. Frequenta o equivalente ao 10º ano, na escola francesa de Lisboa, onde diariamente convive com outros adolescentes nas mesmas circunstâncias: rapazes e raparigas oriundos de famílias francófonas ou nas quais se optou pelo ensino bilingue francês - português. Para além das duas línguas com quem trabalha na escola, Stéphane explica que no liceu francês a carga horária é maior do que no sistema português. E assim será durante os dois anos lectivos que ainda tem pela frente, até concluir o equivalente ao 12º ano. Diz-me que vai seguir Ciências, Línguas, ou Economia. Mas se eu escolher Línguas, depois não posso fazer nada que tenha a ver com Ciências. Escolhendo Ciências depois posso, se quiser, fazer Línguas. Mas isso é só para o ano, porque no sistema francês só temos de fazer escolhas no 11º ano.

Viajar


No entanto, será talvez conveniente que comece a pensar nas escolhas que será obrigado a fazer brevemente. Que sim, diz, “mas estou sempre a mudar de ideias, já quis ser astronauta, trabalhar com organizações humanitárias, ser piloto (aviação comercial, porque o exército não me interessa), ser arquitecto… Eu sei que são coisas muito diferentes entre si.” Pergunto se sente ou não a pressão dos adultos, e do próprio sistema de ensino, no sentido de fazer a escolha inequívoca. Que sim, que sente isso na escola, e até um bocadinho em casa. “Mas continuo a achar que ainda tenho tempo. Mas sinto essa angústia por parte dos adultos e da sociedade” O certo é que parece movê-lo um desejo de viagem. “Se for arquitecto posso ir construir casas para outros países, para lugares onde as pessoas vivem na rua, porque não tem casas. Sim, quero viajar e ajudar pessoas. O que não quero é ficar sentado a uma secretária a assinar papéis. Isso é uma seca, sem interesse nenhum para mim.” Após o que desaparece veloz, mal se despedindo, seguindo pela rua como uma seta, provavelmente cheio de frio, porque numa tarde de enganador sol invernio vestiu apenas uma T-shirt.”



Para ir ganhando confiança da mãe, a Ana tem de dar provas de maturidade, como por exemplo esforçar-se por chegar a casa mais cedo – mais cedo do que o que apetece, e se possível até do que o combinado com a mãe. A palavra aqui é “esforço”. Esforço para ser capaz do compromisso necessário entre os desejos e as obrigações, os direitos e os deveres. Esforço para conseguir “ser alguém na vida”, explica Ana, numa altura da vida a vários títulos difícil para ela. Dificuldades para as quais contribuíram os maus resultados que obteve no final do primeiro período (Ana frequenta o 9º ano numa escola secundária de Lisboa). E por isso “é preciso esforçar-me e estudar um pouco todos os dias”, ouço-a dizer como se falando para si própria: “Nem que seja sentar-me e pegar numa caneta e escrever qualquer coisa sobre a matéria.”

Ser capaz

Pressinto nela a angústia de poder vir a não ser capaz de ser essa pessoa tornada “alguém” por via dos sucessos que nos nossos dias conferem às pessoas as qualidades que as distinguem dos “ninguém” desta vida. E confirmo as minhas suspeições: a Ana tem receios, sim, angústias talvez precoces, mas que espelham a insegurança de uma sociedade. Medo. “De poder vir a não ser capaz… às vezes vejo pessoas na rua que estão na miséria, e eu tenho medo de vir a ser uma delas… não conseguir fazer os meus estudos, medo de não ter comida para alimentar os meus filhos… A vida adulta é muito complicada… às vezes é uma vida feliz, mas para isso é preciso conseguir ter aquilo de que se precisa para se viver com dignidade.”

O espectro das escolhas próximas

Sobre as possibilidades profissionais de futuro diz que tem várias ideias. “Há pessoas que dizem que eu tenho jeito para o desenho e que devia ir para Artes Visuais, mas não sei se é uma coisa para mim… quando era pequena dizia que gostava de trabalhar no Pingo Doce… também gosto de estética… Acho que ainda é cedo para tomar decisões, nós aos 14 ou aos 15 anos ainda não temos essa capacidade para decidir. Nesta idade ainda não há cabeça para isso, ainda não há maturidade.” E, no entanto, é nesta idade que lhes é pedido que comecem a pensar no que farão proximamente, altura em que são obrigados a escolher – entre Ciências e Letras, por exemplo. A todos, claro rapazes e raparigas, indiferentemente. Apesar de eles serem reconhecidamente mais imaturos que elas. “As raparigas são mais maduras, os rapazes ainda são muito crianças nesta idade. Por isso é que em geral os rapazes que nós escolhemos para namorar são quase sempre mais velhos…”




MEDO “A vida adulta é muito complicada. Às vezes é uma vida feliz, mas para isso é preciso conseguir ter aquilo de que se precisa para se viver com dignidade.”



Adultos impreparados e frágeis

“Há muitos professores que não sabem lidar com os alunos. Cheguei a ter alguns que tinham medo de nós. Há alunos que passam o tempo a mandar piadas e depois as aulas tornam-se pesadas, os professores mandam-nos para a rua, há insultos, e os alunos vão para casa dizer mal dos professores, e depois os pais vão à escola defender os filhos… Mas isso é tudo por causa dos maus comportamentos.” Ana pensa que os alunos malcomportados são de todos os estratos sociais e não apenas dos mais baixos, onde se pensa que o défice de educação em casa determina os problemas comportamentais fora dela. E também que esses alunos (tanto rapazes como raparigas) se comportam mal “apenas para se divertirem”. Ana recorda uma professora que um dia desatou a chorar durante uma aula, a chorar de desespero, “porque nós a tratávamos muito mal, havia colegas meus que gozavam com ela, que mandavam piadas, e ela pura e simplesmente não conseguia dar a aula.”

Ser contra

É algo que define a adolescência. Ser contra como forma de afirmação perante os adultos. Ser contra para não fazer o jogo dos adultos, para questioná-los, frequentemente agindo por oposição àqueles. Mas apesar de teoricamente sabermos que os confrontos são inevitáveis, saudáveis e até desejáveis, há por vezes a tendência de querer identificar bodes expiatórios, culpados de tudo o que corre menos bem entre adolescentes e adultos. Muitos acusam: há qualquer coisa que não está a funcionar nas escolas. Ou será que é em casa que as coisas não funcionam? Os professores acusam os pais de não serem capazes de educar os filhos. Os pais acusam os professores de não terem formação pedagógica para lidar com os adolescentes – a quem os professores tantas vezes se referem ora como “os meninos” (infantilizando-os) ora como “os selvagens” (desconsiderando-os).
Mas nem todos os professores são assim, havendo até alguns que Ana considera como amigos e com quem “dá para mandar bocas uns aos outros e rir disso, e aí são boas aulas, com bom ambiente. Não sei se a nossa revolta é contra os pais e os professores… às vezes acho que é mais contra a escola, contra o Ministério da Educação, contra as regras que eles impõem e nós somos simplesmente obrigados a cumprir.” Que regras? “As regras das escolas… acho uma estupidez haver duas alunas que se sentam nas escadas e chegar uma auxiliar aos berros a dizer que é proibido estar ali! Nós não estávamos a fazer barulho! Estão sempre a refilar connosco!”


Que o relacionamento entre os adolescentes e os adultos é frequentemente difícil já todos sabemos. O que talvez não soubéssemos (porque porventura nunca tínhamos pensado nisso) é que isso também entre os alunos e professores e demais funcionários as relações se pautam por inúmeras dificuldades. Talvez isso explique o facto de o recém-aprovado Estatuto do Aluno ser pautado por um discurso essencialmente exigente ao nível das medidas contentoras da rebeldia dos jovens. Ninguém duvide: se a educação é repressão (ainda que no sentido da inserção, da inclusão, da adaptação a um sistema social), a educação dos adolescentes é-o duplamente. Ainda assim, talvez uma parte desse espartilho pudesse ser desapertado pela acção precisamente dos adultos – cujo acréscimo de experiência deveria possibilitar práticas benévolas (bondosas, benignas, benéficas) tendencialmente pacificadoras do incontornável conflito geracional. Afinal, é disso que trata a pedagogia: da definição dos fins e dos meios julgados necessários para a prossecução de um programa educativo. Na Antiguidade, o pedagogo era o que acompanhava as crianças à escola. Quanto ao mestre, era não apenas o que tinha sapiência e a transmitia, mas também o que orientava, o que guiava, o mentor.


Estar ali só por estar

Na opinião do Diogo, que já conhece mais do que uma escola, o ambiente nas escolas é genericamente mau. Constatamos apenas, já que neste trabalho não cabem todas as razões, contudo legítimas, que conduzem a este estado de coisas: cargas horárias excessivas (para uns e outros), condições materiais das escolas insuficientes, deficiente formação dos professores, equívocos vocacionais, parcos recursos educativos das famílias, etc. “ Às vezes estamos ali só por estar, porque não podemos faltar, mas mal estamos a ouvir… por exemplo, às terças e às quintas-feiras, a última aula é Filosofia. Na minha turma ninguém gosta de Filosofia. Ainda por cima, essa aula é logo a seguir e Educação Física, e nós chegamos lá, a essa última aula, quase a dormir, porque estamos todos cansados…”

Primeiras impressões

“Os professores só tomam nota das aulas em que nos portamos mal, mas das outras, em que tudo corre bem, eles nunca falam. Os stores levam muito a peito quando a gente fala, dizem que é uma falta de respeito. Por um lado chamam-nos criancinhas e dizem que temos de respeitar os mais velhos, até porque quem manda são eles. Mas por outro, quando fazemos asneira da grande, dizem-nos que já somos crescidinhos e já devíamos ter consciência das coisas… Não há uma só medida nem há imparcialidade. No início do ano ficamos logo marcados pelos primeiros testes e pela maneira como nos portamos nas primeiras aulas. Os stores ficam como os burros com palas, parece que só vêem os primeiros resultados e as primeiras impressões… quem tem negativa no princípio é rebaixado ao longo do ano, é inadmissível… é injusto, porque eles mandam mesmo abaixo quem tem negativas no início do ano. Mas se alguém tiver 19 no primeiro teste, é logo tratado como um santinho. Pode estar a falar durante a aula toda que a stora não diz nada. Os stores valorizam de mais as primeiras impressões.”



ESCOLA “Às vezes estamos ali só por estar, porque não podemos faltar, mas mal estamos a ouvir. Os stores só tomam nota das aulas em que nos portamos




Escala social da escola

Nem só aos professores se aponta o dedo. Também os funcionários das escolas são alvo da críticas dos alunos. E as relações entre eles por vezes olhadas como pouco sérias, porque discriminatórias dos alunos. Um dia o Diogo ia comprar um bolo, mas a funcionária disse-lhe que já não havia. O que ele muito estranhou, já que minutos antes o rapz tinha avistado uma bandeja cheia deles. “A funcionária estava a guardar os bolos para os professores… Os funcionários tratam melhor os professores do que os alunos, como se eles estivessem acima de nós. Mas o bar é de todos, é para os alunos e é para os professores. Na minha escola antiga os professores tinham um bar só para eles, e nesse bar havia coisas muito mais requintadas [risos]! Toda a gente é igual. Mas parece que não. Quem trabalha lá e está a ganhar dinheiro é mais privilegiado. Nós que estamos lá a gastar dinheiro, somos tratados como os últimos da fila. E somos constantemente rebaixados, também pelos funcionários. Mas já se sabe: há sempre aquela corrupção entre os professores e os funcionários.

Rumos

Diogo frequenta o 10º ano numa escola secundária da rede pública. Já escolheu uma direcção (a das Ciências e Tecnologia), mas ainda não sabe para onde encaminhar-se em termos profissionais. “Há pessoas que aos 15 anos já tem maior consciência de si próprias e já sabem que querem muito fazer uma determinada coisa mas não conseguem, querem por exemplo seguir Ciências, mas que depois têm dificuldades nas disciplinas científicas. Uma coisa é querer e outra é poder. A vocação conta, sim. Eu estou à toa. Com nenhuma ideia na cabeça. Sei que fiz bem em seguir Ciências e Tecnologia, mas ainda não sei o que quero fazer profissionalmente. A escolha é muito ampla. Posso ser engenheiro, polícia técnico, biólogo… mas ainda não tenho nenhuma pista.”

Revolta

É talvez a palavra que melhor define os tempos da adolescência. A palavra de eleição, juntamente com “rebelde” (assim se define a geração Morangos com Açúcar). Rebeldia que o marketing explora sem subtilezas, mas que corresponde a uma realidade: crescer é confronto. Os filhos com os pais, estes com aqueles, estes consigo próprios, tantas vezes impreparados para a tarefa de educar. Há porém revoltas que podem ser contidas ou expressas, em qualquer dos casos resolvidas, ultrapassadas. “ Toda a gente tem alguma revolta dentro de si, e os adolescentes também, mais ainda por causa das pressões todas e do rebaixamento que sentem, na escola e em todo o lado. Os adolescentes têm uma grande revolta dentro de si, mas não conseguem libertá-la, tem medo, medo de se exprimir… Às vezes os pais pensam que os filhos são iguais a eles. Estão sempre a dizer que na nossa idade isto e mais aquilo… mas nós não somos eles, e não estamos na época deles. Às vezes as acções dos filhos reflectem-se nas acções dos pais. Há pais que se queixam de que os filhos não falam com eles, mas se os filhos não falam, por alguma razão é! Eu falo com os meus pais, mas claro que não falo de tudo, há assuntos que são privados… Toda a gente precisa da sua privacidade, e os adolescentes também.”






Dar provas de maturidade, eis o que marca definitivamente o relacionamento entre os adolescentes e os pais. Provar, no dia-a-dia, que se é capaz de ser responsável, enfrentando um mundo comprovada e crescentemente perigoso e no qual a experimentação juvenil comporta vários riscos. Mostrar que já não se é uma criança, incessantemente demonstrá-lo – apesar de a infância estar ainda tão próxima. Doris começou a sentir-se numa nova fase aos 14 anos, “quando comecei a poder andar sozinha na rua”. Diz que essa autonomia correspondeu a um desejo concertado entre os pais e ela. “Sentimos todos que eu já era capaz de ser um pouco autónoma, o que dava mais jeito a todos.” Mas, claro, ao acréscimo de liberdade juntou-se uma nova exigência ao nível da responsabilidade e também da participação na vida da família (colaborar nas tarefas domésticas, por exemplo), pondo um fim ao alheamento infantil que (talvez erradamente) demite as crianças da construção familiar.

Etapas não são degraus

Doris não tem autorização para sair à noite. “Sim já pedi para sair à noite, mas a minha mãe disse-me que é muito cedo. Já fui jantar fora, mas depois vão buscar-me, ou então tenho de ir para casa acompanhada por alguém. Discotecas… ainda não tenho esse direito. Perguntei à minha mãe se a partir dos 16 me dará mais liberdade, e ela disse que talvez. Há sempre aquele medo que os pais têm. Medo que nos metamos em coisas que não devemos, como drogas e essas coisas. Nas férias posso ir ao cinema e sair com os amigos. Posso namorar – em relação a isso os meus pais são liberais, mas há regras. Quando digo que vou a casa do meu namorado, só me deixam ir se estiver lá alguém.” Parece tola a premissa moralista – ouço vozes mais ponderadas lembrar que não há horários para o desejo amoroso -, mas responde a um receio concreto dos pais. O mundo está cheio de mães adolescentes, e engravidar é mais do que se julga aos 15 anos.

Esperar

Doris considera que os adultos são intolerantes para com as contradições do comportamento adolescente. Se o comportamento é sempre bom, está tudo bem, e os adultos até conseguem ser delicados para com os adolescentes. Mas à primeira derrapagem mostram-se implacáveis, sendo rápidos a acusá-los de infantilidade. Daí a importância das provas dadas, contínua e perseverantemente cumpridas ao longo dos anos. Crescer é nesta altura da vida esperar. Esperar que se cumpra um ciclo. Paciente e dolorosamente esperar pela aceitação plena por parte da comunidade adulta estabelecida.
Filha única, a jovem pensa que se tivesse irmãos davam-lhe mais liberdade. “Não me posso queixar muito. Mas gostava de já sair à noite”. Embora se vá contradizendo enquanto explica que “isso das saídas” também não é assim tão importante.

Das virtudes da escola pública

Quando era pequena, Doris queria ser bióloga marinha. “Mas não gostava de matemática nem de Ciências. Percebi que ia ser difícil… Sempre gostei muito de desenhar, e por isso decidi ir para Artes. Os meus pais aceitaram bem as minhas escolhas. Fiz também testes psicotécnicos que indicaram Artes”. A jovem pretende por isso seguir Design, talvez para trabalhar em publicidade.
Que a escola pública se debate com inúmeras dificuldades já todos sabemos. Dificuldades que os orçamentos do Estado não têm vindo a atenuar, pelo contrário. Ainda assim, o ensino público tem as qualidades que lhe são próprias: miscigenação cultural, exposição a outros valores, assegurando o necessário confronto com o mundo real da diferença. “Andei sempre em escolas privadas e quando fui para a pública disseram-me que ia ter imensas dificuldades. Mas afinal a adaptação foi fácil e correu tudo bem. Acho que estava na altura de mudar. Tive sorte com a turma, e não me posso queixar dos professores que me tem ajudado imenso. Já não conseguia voltar para a escola privada. Na pública há uma outra abertura. Aprende-se mais.”





GERAÇÕES “somos muito diferentes dos nossos pais quando eram adolescentes. A minha mãe diz que não se mudou assim tanto, mas eu acho que mudámos.”

A experiência é um posto

“Acho que nós adolescentes somos muito diferentes dos nossos pais quando eram adolescentes.” Diferentes como? “Antigamente eles tinham mais regras, as coisas eram mais rígidas, tinham menos liberdade e não se divertiam tanto. É a ideia que tenho. Havia assuntos tabus. Namorados, por exemplo. Mas a minha mãe diz que os tempos não mudaram assim tanto. Eu acho que mudaram. Por exemplo, os casamentos, na altura da minha mãe, faziam-se mais cedo. Agora as pessoas casam muito tarde. E às vezes não se casam”. Por outro lado, parece a Doris que os adultos valorizam demasiado a experiência e que isso aumenta a dificuldade dos adolescentes em ter voz própria. “Detesto quando me dizem “tu não sabes nada”, porque eu percebo as coisas, olho á minha volta, leio, já tenho 15 anos, já passei por algumas coisas.” Ainda assim, na família da Doris conversa-se e há espaço para falar de tudo. “ Menos dos assuntos financeiros. Mas falamos bastante uns com os outros, e a minha mãe e o meu pai põe-me sempre à vontade para falar do que quiser. Digo sempre a minha opinião mesmo que eles não concordem, mas acho importante dizê-la.”




Artigo retirado da Revista Notícias Magazine - Março 2008
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